Manhã feliz. Sentada em uma mesa grande, ao lado de um “
power outlet”, o que permite que eu tome notas de tudo o que possa ser uma citação no futuro. Uma pilha de seis livros, para começar – a “woolfiana” da biblioteca está no “
ground floor”, e a tal mesa grande, um piso acima. Terminando com esses, outros seis, ou oito, ou dez, ou quantos possa carregar pelas escadas.
Dá uma sensação de liberdade, e de que o trabalho é fácil... Claro que isso é enganoso. Depende muito mais de mim como escritora do que da minha capacidade de escolher livros numa estante bem-fornida. Mas digamos que se agradeceria muito que a universidade da gente também tivesse tantos livros sobre tantas coisas...
I have to admit it’s getting better, a little better all the timeComi bem! Contrariando a idéia de que isso, em terras inglesas, é uma façanha, não posso reclamar do meu
fish and chips, que não era
fishandchips porque não vinha tudo num cone de papel-jornal, mas num prato bem arrumadinho, com ervilhas
at one side, onde a atendente ainda colocou uma fatia daquele limão amarelo super suculento deles.
(falando em limão, já fiquei fã de uma bebida que tem aqui, uma limonada meio afrescalhada, orgânica e o caramba, que eu comprei ontem pela primeira vez porque a garrafinha era bonita... a de ontem era com um pouco de limão e mais gosto de uma tal de “
elderflower” – nenhuma idéia de que flor seria esta em português ou em espanhol, mas procurarei. A de hoje era limonada mesmo. A de ontem - vide foto no post abaixo - era melhor. A flor desconhecida ganhou.)
Ah, e antes teve sopinha de lentilhas, que estava deliciosa.
Ponto negativo: eles acreditam que é verão e ligam vários ventiladores dentro do refeitório. (E ainda tem aqueles que, valentemente, ao ver que o sol tinha resolvido aparecer, se postaram do lado de fora.) Resultado, do mesmo modo como eles gostam de cerveja quente, devem gostar de comida fria, o que tirou uma boa parte do prazer do meu almoço. Enfim...
Pelo menos, ao contrário de ontem, não devo passar fome à noite. Acontece que isso aqui é uma faculdade “
out of term”, ou seja, as aulas ainda não começaram, e tudo está ligeiramente fora de ar, embora tudo funcione ao menos um pouquinho. A biblioteca tem horários reduzidos, a
canteen só abre pro café da manhã e pro almoço, e tem um bar que abre de noite, e achei que isso me salvaria, ontem, mas me enganei. Acabou que fui pra cama com um saquinho de batatas chips e um suquinho na barriga. Em algum momento, pensei que ia tomar a mini porção de leite que eles deixam no quarto para o seu chá, ao lado da
kettle. Sim, aquele ridículo dedalzinho de leite, vocês entenderam bem. Mas aí achei absurdo demais, mesmo para uma estudante faminta, e esqueci do assunto, sabendo que ia encarar um
English breakfast hoje cedo.
Então desta vez me preveni, voltando ao princípio do parágrafo anterior. Descobri onde estava o minimercado e fui me abastecer para quando a sombra do deserto brightoniano se abater sobre mim. Ao entrar, foi meio desesperante: em meio a cadernos, abrigos com o nome da universidade, canetas e outros utensílios necessários aos alunos, uns sanduíches de ovo ou de galinha, iogurte, chocolate, uma quantidade desproporcional de balas e doces em geral e nada cuja forma encaixasse com a do buraco que se abriu no meu estômago ontem à noite. Mas eu fiz uma “segunda leitura” das prateleiras refrigeradas e encontrei umas mini comidinhas prontas – tinha várias saladas (comprei uma de lentilhas – eles adoram lentilhas, como eu! Essa é a minha parte inglesa, pelo jeito) e outras coisinhas (como uma caixinha com quatro charutinhos de folha de uva, que eu comprei). Isso, um “Ribena Original” (seja lá o que for que eles querem dizer com isso; será que tem pirata?), sabor
blackcurrant (não deve ser minha fruta preferida, mas não havia outro suco) e um iogurte devem me salvar de qualquer aperto vindouro.
Puxa, parece que a comida se torna uma grande preocupação quando você está sozinho. Ontem, pra piorar, fazia frio. Hoje de manhã, também, e chovia. Agora o sol saiu, mas não faz calor, não. De qualquer modo, ver a luz é bem mais alentador do que aquela chuva molhando o vidro da janela logo cedo (por outro lado, saber que eu não tenho de ser inglesa nisso e achar normal, já que é só por poucos dias, é um alívio e faz com que eu ligue menos pro tempo).
Preciso tirar uma foto do meu quarto – em um momento que eu tenha a sorte de estar lá e haver luz de dia bonita – para que vocês vejam como é o lugar onde eu brinco de ser Sylvia. (Está bem, está bem: Sussex não é Cambridge, e eu não sou nem tão triste nem tão poeta como ela...)
Update noturnoA mistura do cansaço de todas as viagens, mas a comida mais abundante do almoço e minha recusa (inexplicável) em tomar café depois de comer me fizeram cabecear na biblioteca, em um legítimo exemplo de sono pós-prandial. Eram 16h30 e saí numa procura desesperada de algo que tivesse cafeína. Mas nem teína encontrei: não tomavam chá as cinco? Pois na Universidade de Sussex, não. Tomarão lá nas casas dele... Cheguei à lojinha que tinha salvo a minha vida às 16h35 e o cara estava fechando a porta. Nada de nada nos arrededores da Falmer Station...
Voltei ao meu lugar, pois me sobrava menos de uma hora até a biblioteca fechar, esperando que o ventinho que começava a esfriar, com o cair do dia, me acordasse no caminho. Parece que funcionou. Dei conta de mais uma boa parte das leituras, mas ainda assim sobrou material.
Hélas. Bem, não importa tanto: tenho a sensação de que o dia realmente rendeu.
Amanhã, o mar.