Domingo, Julho 30, 2006

história torta do passado que não há

Este é um mau poema. Aliás, nem sei se é um poema. Mas eu senti uma vontade irresistível de escrevê-lo e, tendo escrito, impossível não publicá-lo.
PS - este habeas corpus preventivo é ridículo.
PS 2 - continuo desejando rosas brancas.

***

Volto do mercado sem as rosas brancas.
Só queria se fossem brancas, e não havia.
Aos 20 anos, eu queria uma casa lilás:
eu quis muito a casa lilás
que ficava na rue Saint-Denis,
em Montreal,
Canadá.
Quis muito e de nada serviu.
(mas eu aprenderia que a vida é assim mesmo.)
Queria instalar na casa
uma comunidade de amigos,
a vida seria uma festa
e eu teria sempre 20 anos.
Ou não:
podia ser que eu pintasse maus quadros,
escrevesse maus livros,
virasse ecologista
e tivesse três filhos loirinhos.
Os filhinhos seriam remelentos
e se esconderiam atrás das voltas da minha saia indiana;
seriam todos de pais diferentes,
pais que não pagariam pensão,
mas que nos levariam, todos juntos,
a passear no parque a cada final de semana.
Os quadros e livros maus não dariam dinheiro
(da ecologia nem se fala),
mas dinheiro não seria problema:
viveríamos tranqüilos,
equilibrando poucos desejos
sobre o cheque da previdência social.
Já faz muito tempo
que nenhuma dessas coisas aconteceu,
e isso é bom,
pois aprendi que posso agüentar
a frustração de não ter rosas brancas.

Sexta-feira, Julho 28, 2006

uma resenha

Perdi as palavras que ia usar para falar de você. Das suas palavras.
Mas as minhas palavras são as suas: eu falo pela sua boca - pela sua pluma - há tempos imemoriais.
Falo em você quando você é romântico como um marinheiro solto em pleno mar insondável da literatura inglesa.
Pentecostal, falo línguas que desconheço, a cada vez que você é clássico e traz para dentro de mim esse passado de tempos dilatados, de ponderações sobre o amor.
Falo e não me reconheço - mas ainda assim sou eu - quando você se assume barroco (talvez seu verdadeiro estado, e o meu mais recôndito).
E mais me escuto em seus sonetos, de qualquer tempo que sejam; de Shakespeare e Camões, e Petrarca e Ariosto: os que não sei pronunciar, mesmo tendo à mão verbos e sintaxes, e que tocam aquela corda escondida em mim.
A todos você conhece e todos falam em você, com seu nome próprio.
Não acho as palavras certas porque você as guardou todas.
Buscando fazer-me de novo dona do que sou eu, aliso com carinho a maciez generosa dessa capa malva e abro o livro.

aviso

Plantei umas novas flores aqui.

Terça-feira, Julho 25, 2006

desabafo

Entro ao meu jardim, depois desse silêncio escassamente rompido dos últimos tempos, para uma queixa. Me queixo porque tive um momento mínimo de insatisfação profunda. Vi que preferiria sentar aqui e escrever uma das tantas coisas nas quais tenho pensado - poemas, resenhas, resenhas sobre poesia, poemas-resenhas - em lugar de ir lá para a sala e trabalhar em algo que devo fazer.
Ainda mais porque algo não é algo: são algos.
Enfim: registrada a queixa, volto ao devido.
Paciência.

Quinta-feira, Julho 13, 2006

What a day!

Hoy:
El blog de Hilda, nuestra dove, está cumpliendo su primer aniversário.
El blog de Alonso, afortunadamente, resuscitó.
El blog de Élika empezará a ser escrito desde otras latitudes.
Felicidades a los tres, mis amigos de corazón y de bitácora.

(los enlaces deberían de estar en este post, pero por ahora están nada más al lado; esta computadora, o este navegador, está en pleito con los enlaces en las entradas de blogger)

Quinta-feira, Julho 06, 2006

Propaganda e desculpa

Reclamaram comigo porque eu, que tenho escrito muito erraticamente, publiquei nesta quarta-feira textos em quantidade acima da média usual neste jardim. Deste modo, dizia o reclamante, sufoquei as flores de terça-feira com as novidades.
Peço desculpas.
Espero que a pessoa ofendida veja este novo post não como um sufoco a mais, e sim como uma espécie de propaganda redentora para o texto sufocado...
Aproveito para dizer que vou dar um pouco de ar para as plantinhas, pois estarei fora até segunda e creio que dificilmente poderei "semear" tantas coisas como nos últimos dois dias.
Até logo...

*
Alguien se quejó conmigo porque yo, que ando escribiendo de manera errática, publiqué este miércoles textos en cantidad por encima del promedio usual de este jardín. De este modo, decía el reclamante, ahogué con las novedades las flores del martes.
Pido disculpas.
Espero que la persona ofendida vea en este nuevo post no otro ahogo, sino una especie de propaganda redentora para el texto ahogado...
Aprovecho para decir que les voy a dar un poco de aire a las plantitas, ya que estaré fuera hasta el lunes y creo que difícilmente podré "sembrar" tantas cosas como en los últimos dos dias.
Hasta pronto...

Lapsus

"Eu não aprendi
alemão porque
não

aprendi
o sexo
das coisas em

alemão;
portanto não
me é dado

falar de coisa
alguma em
alemão."

Quarta-feira, Julho 05, 2006

haynaphorism

Certain
words sound
better left unsaid.

Las casas, nuestra(s) vida(s)

Para Élika y Alonso

Sé muy bien cómo se siente.
Dejar una casa es siempre de una melancolía... profunda. Melancolía profunda suena demasiado a cliché, tal vez. Pero no hay otro adjetivo, creo. Es algo que se mete dentro y ahí se queda... Aunque escondido, aunque superado, profunda melancolía.
He dejado algunas casas en mi vida.
La primera vez fue un cambio de ciudad, dejando atrás la casa de mi infancia - que hoy, después de décadas en la familia, es una puerta para siempre cerrada ante mis ojos.
En la nueva casa, fuimos felices, nosostras tres, hermanadas. Amor horizontal, aunque entre generaciones distintas, enfrentando juntas a la novedad, al miedo y a la sorpresa de lo nuevo.
Después fue la mudanza a la primera casa donde por primera vez tendría un cuarto mío. Profundamente, también, recuerdo la sensación de la llegada, mucho más que la de la partida de la casa anterior.
Enseguida, dejar a esa casa y a ese cuarto por otros, nuevos, conquistados con ahinco.
En un periodo intermedio, entrar en un avión con nueve meses de cosas desconocidas por delante. Llegar a otra casa, tan diferente, pisar otras banquetas, sola y en compañía, triste, feliz. Banquetas provisionales, en las cuales fui marcando mis pasos. No se ven, hoy - pero allá están.
Después, abandonar para siempre el lugar donde estuve viviendo intermitentemente a lo largo de esos mismos nueve meses, en una calle portuguesa con el nostálgico nombre de Passeio das Virtudes. Nos recuerdo parados, encarando a la fachada amarilla. Parece que funcionó, y creo que cada uno de nosotros lleva atrás de las retinas un recuerdo vívido, fijado en ese momento, de sus ventanas abiertas para la lluvia.
La penúltima vez fue la casa materna - pero esa sigue llena, sigue siendo casa, porque una casa sólo lo es de verdad si está habitada.
Por fin, dejé mi casa tan querida, la única que tuve sola - aunque por un rato fuimos dos. La casa donde me encontré conmigo tantas veces. Jamás tuve el valor de pasar de nuevo en frente del edificio, en las veces que he ido a mi tierra.
En algún momento también extrañaré esta que hoy es mi casa, nuestra casa. En algún momento nos vamos a mover y extrañar ese pedazo de vida - irrecuperable como todos los pedazos pasados de vida.

Terça-feira, Julho 04, 2006

Balada bêbada ou The Love Song of F.A. Freiseele

Na primeira vez em que nos encontramos
você chegou ao jardim
(quem sabe como),
e eu vinha de um passeio aéreo
pela Plaza Mariscal Sucre.

Hoje, não longe dali,
novamente só,
eu me sentei num banco
puído e torto,
em volta de uma árvore
velha e torta,
depois de termos pisado, pés paralelos, outras calçadas.

Eu me sentei e abri o livro
e nele encontrei um poema que
- creio -
você escreveu para mim sem saber.

Eu zarpo de mim, dou um passo
e me encontro descendo três degraus à beira do Viaducto,
a coisa mais próxima a um quais parisino
que esta triste cidade tem a oferecer.

Esta rua se chama
Amores
(e tantos há nesta vida).

Ama-me, pois, sem propósitos.
Com um amor em linha reta.
Com um amor como esta rua
que sem dúvidas conecta,
constante e imutavelmente
dois pontos distintos no espaço.

Ama-me com amor de amigo -
de todos os amores
(e tantos há nesta vida)
o que mais nos oferece,
pois nada pede e se dá.

Ama-me com o amor que me cerca
e ao meu guarda-chuva gris,
que me ampara dos olhares
mas não da água que cai.

(Com outro não seria o caso.)

Ama-me, pois, como a chuva
me iguala aos edifícios
quando me banha e a eles
sem fazer distinção
- mas que sem saber refresca
uns pés cansados do caminho.