história torta do passado que não há
PS - este habeas corpus preventivo é ridículo.
PS 2 - continuo desejando rosas brancas.
***
Volto do mercado sem as rosas brancas.
Só queria se fossem brancas, e não havia.
Aos 20 anos, eu queria uma casa lilás:
eu quis muito a casa lilás
que ficava na rue Saint-Denis,
em Montreal,
Canadá.
Quis muito e de nada serviu.
(mas eu aprenderia que a vida é assim mesmo.)
Queria instalar na casa
uma comunidade de amigos,
a vida seria uma festa
e eu teria sempre 20 anos.
Ou não:
podia ser que eu pintasse maus quadros,
escrevesse maus livros,
virasse ecologista
e tivesse três filhos loirinhos.
Os filhinhos seriam remelentos
e se esconderiam atrás das voltas da minha saia indiana;
seriam todos de pais diferentes,
pais que não pagariam pensão,
mas que nos levariam, todos juntos,
a passear no parque a cada final de semana.
Os quadros e livros maus não dariam dinheiro
(da ecologia nem se fala),
mas dinheiro não seria problema:
viveríamos tranqüilos,
equilibrando poucos desejos
sobre o cheque da previdência social.
Já faz muito tempo
que nenhuma dessas coisas aconteceu,
e isso é bom,
pois aprendi que posso agüentar
a frustração de não ter rosas brancas.

