Sexta-feira, Junho 30, 2006

breve regresso

Ando trabalhando demais.
Todas as notas, de qualquer coisa que pense em escrever, têm ficado no caderno que sempre levo na bolsa.
Mas, como eu nunca me jactei de ser coerente, adentro o jardim pra dizer que agora também publico aqui.

E, a princípio, só em português.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

estatística das notícias

Homem mata mulher grávida e duas filhas.
Deslizamento de terra mata 11 na China
Emboscadas matam 32 no Afeganistão.
Quantas de mim morrem, aqui e agora?

Domingo, Junho 04, 2006

Agapito

A manhã cinza pica a pele com sua umidade. A pele se lembra, então, de outro cinza, de outro úmido toque, que não era de uma manhã de verão, mas de uma tarde de inverno: mesmo hemisfério, e ainda assim tão longe.
O cansaço também era de outro tipo. E, no entanto, se parecia a este.
Naquela tarde, havia porém a fome, depois do dia, depois de andar, as pernas ainda pequenas para os quilômetros percorridos ao lado do pai e da irmã mais velha, ao longo de lugares nem sempre interessantes para a menina.
De todos os sentidos, o olfato se mostrou o mais rápido. O prenúncio da energia que podia obter empurrou as pernas pequenas, arrastando, um em cada braço, pai e irmã ao longo das ruas que pareciam todas iguais, um bairro romano que sempre se resistiu a dar-se a conhecer por completo.
Agapito, esse era o nome do homem.
A pizza era mais como um pão, bendito pão naquela hora. Um gosto novo descoberto, para além da saciedade. Um hábito novo para todos, um motivo para uma reunião, em outros fins de dias como aqueles. Um gosto simples e sólido para quem fosse que se reunisse em volta da massa, que podia ser branca, salpicada de alecrim, ou tingida de vermelho - la rossa -, ou com funghi, a preferida da irmã.
Dizem que não há que voltar a um lugar onde se foi muito feliz. Mas o que nos move, sempre, é a dúvida sobre se teríamos chegado ao cúmulo da felicidade. Quem desconfiaria que nessa massa rústica se escondia tanto dela?
Eles não; e voltaram.
Agapito havia morrido. Já não havia de onde sacar uma nova fatia alta de felicidade.
Nessa manhã de verão, cinza e úmida, falta o sentido que guiaria a outro quinhão tão espesso.

Sexta-feira, Junho 02, 2006

Post 100 - O conto

As crianças deveriam ter encontrado um tesouro, mas só acharam minhocas, tão pequenas como alfinetes.

Seus avós lhes haviam dito: "quando chovem tartarugas, é tempo de escavar a terra úmida, sob a qual repousa um raio adormecido de luz dourada".

Mas seus avós haviam morrido há muito tempo, já. E, naquele início de verão, a terra estava quase seca.

"É tarde. Ou cedo. E eu não vi as tartarugas. Falta água", opinou um deles.

"Água?! E o ruído da chuva?".

"Não, é o murmúrio nas gretas, da chuva que viram meus avós".

Havia, era evidente, um desacordo entre as crianças sobre o momento justo para escavar a terra.

"Deveríamos escavar quando essas nuvens desaparecerem", disse o mais tímido do grupo.

Ninguém prestou atenção ao que parecia um conselho sem sentido, já que se tratava de chuva, não de céu azul.

Mas ele sabe mais que os outros meninos, por causa de uma lembrança distante. Distante e secreta: em um dia brilhante, ele vira cair do céu, lenta e verticalmente, uma só tartaruga, que sumiu na terra -não tão úmida-, deixando no lugar de seu mergulho uma marca de ouro.

Então, duas tartarugas como pedras preciosas... Avançaram lenta, quase imperceptivelmente sobre a terra sedenta.

As cinco crianças mal acreditavam no que viam; atrás de cada uma delas, um ligeiro pó amarelado – seria ouro? – ia formando um caminho. Só o menino tímido estampava no rosto, em vez de susto, triunfo.

“Agora é hora”, disse o pequeno tímido, enquanto começava a fazer diminutos sulcos pelos lugares que as tartarugas recém tinham marcado de ouro.

Inesperadamente, as gotas começaram a se fazer sentir, junto com o cheiro inconfundível da terra úmida. Faziam-se sentir como ferrões de abelhas travessas, ferindo o solo e batendo frias sobre as suas peles. (Abelhas de cinco olhos: três pequenos no topo da cabeça e dois maiores na frente.)

Os meninos, surpresos,viram como o rasto deixado anteriormente pelas tartarugas se acumulava sobre a terra recém umedecida, formando um pequeno riacho luminoso sob o chumbo da tarde.

E assim foi como, de novo, encontraram minhocas.
O mais tímido dos meninos não entendia por que tinham esperado que tartarugas caíssem do céu para, em vez de um raio adormecido de luz dourada, só encontrarem vermes refestelando-se na terra úmida.