Resolvi transplantar para o meu jardim algo que originalmente foi comentário a uma entrada,
aqui.
É que, estando de novo mais perto do cenário dos fatos, essas lembranças recobraram sentido. Elas me espreitam a cada gaveta que abro, me atropelam em cada foto desses porta-retratos.
O que era para ser uma lista de "coisas" que marcaram a minha infância deu lugar a um conjunto de reminiscências bem pouco concretas, bem distantes do que normalmente se define por... "coisa". Muitas bem italianas, o que, se não me surpreende, me enche de uma certa ternura por essa relação com um país que foi,
hélas, bem mais meu do que é hoje.
O tempo. As circunstâncias.
*
A lista:
1. Uma árvore que era a torre da Rapunzel e quetais, na pracinha perto da minha casa.
2. As botinhas ortopédicas e, ato contínuo, os sapatos que depois quis comprar e que desencadearam minha paixão por essa peça de vestuário.
3. Fantasias de carnaval feitas pela minha mãe, que desencadearam minha paixão pelo hábito de me disfarçar.
4. Outras roupas também feitas pela minha mãe. Lindas.
Me lembro especialmente de uma camisola de flanela, branca, florida de vermelho, que tinha no pescoço tiras de amarrar feitas do mesmo tecido; sempre mordia as tais tiras e sempre sentia uma sensação horrível, a flanela secando a saliva na ponta da língua. E sempre voltava a mordê-las.
(Masoquismo?)
5. O dia em que, na Villa Borghese, caí. Usava um dos vestidos que minha mãe tinha feito; o único do qual jamais gostei, aliás. Era marrom e xadrez.
Não bastasse eu ter arranhado terrivelmente os joelhos, a queda concluiu, fragorosa, sobre um monte de esterco dos pôneis de aluguel do parque.
Era verão.
Eu tinha um sorvete de morango.
Que caiu.
No ônibus, de volta para casa,sentada no colo da avó, disse, e repeti, entre lágrimas: "Agora eu sei o que é sofrer!". Contava então bem-vividos cinco anos.
6. As aulas de balé. Que má aluna, e que trauma. E olha que eu insisti. Ou insistiram por mim, não sei. Deveria, deveríamos ter desistido quando eu tinha uns 3 anos e não conseguia seguir os passos porque estava meio assustada, meio abismada, por minha figura pequena refletida no espelho enorme, ao lado de meninas maiores, todas se movendo no ar mais para escuro do salão do clube de regatas.
Tentei também na escola, por pouco tempo, sendo depois entregue aos cuidados de uma professora que tinha muita fama e era uma generala. Com ela persisti mais tempo.
(Masoquismo?)
Deixemos de lado o jazz e o sapateado...
7. Asma. Foi-se, junto com a infância, salvo por uns poucos ataques esporádicos já na vida adulta. Mas quantos, quantos banhos de vapor para que a tosse me deixasse.
Bombinhas nunca usei; desconhecia mesmo sua existência. Corticóides eram proibidos pelo meu avô médico...
Vapor e Marax - nunca vou me esquecer do gosto horrível.
A natação também foi parte da terapia. Mas dessa eu gostava.
(Nem tudo era masoquismo.)
8. Candy Candy. Ela era doce, sofria, era injustiçada. Como eu, claro. O mundo, oh, mundo.
Descoberta via Itália; o desenho animado chegou ao Brasil anos depois de eu descobrir os quadrinhos, em uma revistinha semanal para crianças, em Roma. Teria uns 9 anos e durante os 4 seguintes, ou algo assim, minha tia Egidia comprou (quase) religiosamente - às vezes se esquecia, ou não encontrava, para meu desespero.
Foi assim, no papel, e não na TV, que acompanhei fatos terríveis, como a morte de Anthony ou a mornidão interesseira de Terry.
E também tinha um LP. Em italiano, claro.
9. Pãozinho de nata, uma coisa deliciosa, uns pastéizinhos de forno, recheados com goiabada.
Não dá mais para fazer, informa a avó, porque o leite já não é de saquinho, portanto já não se ferve, portanto já não há nata subindo na fervura e sendo armazenada em um recipiente destinado a este fim, na velha frigidaire.
(Mas, informa a mãe, há uma receita alternativa, com requeijão, facílima. A conferir. Sob pena de soterrar a recordação do verdadeiro.)
10. A Copa de 1982. Alguém pode não se lembrar do Brasil sendo eliminado pela Itália, depois de uma campanha maravilhosa?
Foi um trauma tão generalizado que, contam, certa vez um taxista de São Paulo, reconhecendo em um passageiro nosso carrasco, Paolo Rossi, vingou a nação humilhada fazendo-o descer do veículo.
Mas a verdadeira razão para a lembrança reside no dia seguinte à derrota.
"Foi sua culpa", disseram os colegas na escola. "Você torceu para a Itália!".
Tanto havíamos chorado minha irmã e eu.