Eu nunca fui muito fã de Carnaval.
Não, mentira: quando eu era criança, bem que gostava. Vestir as fantasias - minha mãe geralmente fazia duas para cada uma das filhas - era uma alegria que começava desde antes, desde os ajustes, desde a escolha dos detalhes, das fitas coloridas e brilhantes. Peguei um gosto pelo disfarce.
Mas, depois de grande, depois de São Paulo, depois que a festa deixou de ser um motivo para vestir a fantasia e ser só um amontoado de gente acumulando agarrões na multidão... Deixei de ver graça.
Houve um Carnaval recente que recuperou em boa medida o encanto da infância, nas ruas empedradas de Paraty. Crianças fantasiadas, encontros de blocos nas esquinas coloniais. Foi bonito.
Hoje estou tão longe disso tudo que só costumo perceber o Carnaval quando passou: na Quarta-feira de Cinzas, é costume aqui, as pessoas desenham no rosto uma cruz de carvão. Na verdade não conheço o rito. Sei que vejo na rua, no metrô, muita gente com essa marca triste na cara. Será que se dá na missa, junto com a comunhão? Hóstia de um lado, carvão do outro? Será que é uma coisa particular, feita em casa? Não sei e suponho que não vou descobrir, a não ser que algum leitor me informe.
O fato é que esse detalhe é ilustrativo de um contraste maior. Um contraste entre "certos modos de ser" do brasileiro e do mexicano. Ponho bem entre aspas; essa história de "modos nacionais" é bem enganosa, bem pouco precisa. Mas, como qualquer generalização, não deve ser de todo fortuita, ou inexplicável.
O Brasil é o país do Carnaval; o México, o de Finados. Paradoxalmente, de todas as festas que vi por aqui, a do Día de Muertos é a mais parecida à folia de Momo. As crianças se disfarçam, saem para a rua. Há muitas velas onde teríamos confete.

E neste domingo em que as notícias na internet brasileira não param de dar conta do desfile das escolas de samba, dos blocos nordestinos, dos trios-elétricos baianos, o dia na Cidade do México amanheceu estranhamente gris para esta época do ano, em que o céu, ao menos, costuma brilhar bem azul.
Eu estou comumente gris, acorde com o tempo, acorde com a montanha que vem me soterrando (obrigações, prazeres e compensações postergados, interesse intelectual amassado pelo cansaço), montanha que parece bem mais pesada que esse Ajusco cinza, atrás da nuvem de chuva que não cai, não deve cair, nesta estação seca.
E sinto nostalgia do Carnaval, que há tanto deixei de aproveitar. Queria não ter tanta coisa em que pensar. Queria, enfim, o espírito de suspensão.
Que tudo se acabasse na quarta-feira era, afinal, melhor do que a semana se ver terminada já no domingo.