Terça-feira, Janeiro 31, 2006
Quarta-feira, Janeiro 25, 2006
cinco dedos
Há muito tempo
aquela linha
cortada
me
olhava desde
a minha palma.
Cortada, cortava a
mão esquerda:
diagonal,
cheia de diagonais,
microscópicas, quase
invisíveis,
e um, só
um, risco
grande -
interrupção
gritante no
meio da palma.
Agora eu sei:
aquela linha
cortada
por aquela linha
cortante, ali,
estirada
eram essas linhas
queimadas, gritando:
dor.
Mesmo se a
dor se
vai;
mesmo se a
linha se
esconde,
Sob outras linhas,
faixas, gazes,
cruzadas -
de algodão e
não de
pele,
brancas de pano,
não de
pele,
a linha que
grita está
ali;
vermelha, branca, torta
e emudecida
grita:
"Sou
eu aquela
linha, mil vezes
multiplicada, repetida, salpicada;
aquela mesma,
mas
renovada em corpo
e força:
dor."
"Sou eu aquele
acidente que
corta
a diagonal imperfeita
da sua
palma;
linha da vida,
na palma:
dor."
A linha grita
calada, costura
muda
a palma da
minha mão:
dor.
Com água a
dor se
vai,
empurrada garganta abaixo
pela pastilha;
e
a faixa cobre
o que
grita:
dor.
Mas a
dor é outra
e brota, rediviva;
ressuscita na
palma
e na ponta
dos meus
outros
cinco
ilesos dedos,
que apertam teclas,
quase a esmo
buscando compensação:
dor.
A dor que
não cabe
aqui,
na página que
não há:
dor
que
multiplicada, repetida,
aquela mesma, salpicada,
ressurge, fragmentária, na
palma da
mão.
Ecos do que
não sou
gritam
no que não
somos, fomos,
fizemos;
gritam contra água,
gazes e
algodão;
marcam seu passo
em ondas
na
palma da minha
outra mão:
dor,
de cinco dedos
sãos que
não
valem por um
da palma
que
já não é.
Não é,
mas
será?
- rediviva, multiplicada
ainda que fragmentada
por novas linhas,
cicatrizes, que
gritem
na minha mão.
aquela linha
cortada
me
olhava desde
a minha palma.
Cortada, cortava a
mão esquerda:
diagonal,
cheia de diagonais,
microscópicas, quase
invisíveis,
e um, só
um, risco
grande -
interrupção
gritante no
meio da palma.
Agora eu sei:
aquela linha
cortada
por aquela linha
cortante, ali,
estirada
eram essas linhas
queimadas, gritando:
dor.
Mesmo se a
dor se
vai;
mesmo se a
linha se
esconde,
Sob outras linhas,
faixas, gazes,
cruzadas -
de algodão e
não de
pele,
brancas de pano,
não de
pele,
a linha que
grita está
ali;
vermelha, branca, torta
e emudecida
grita:
"Sou
eu aquela
linha, mil vezes
multiplicada, repetida, salpicada;
aquela mesma,
mas
renovada em corpo
e força:
dor."
"Sou eu aquele
acidente que
corta
a diagonal imperfeita
da sua
palma;
linha da vida,
na palma:
dor."
A linha grita
calada, costura
muda
a palma da
minha mão:
dor.
Com água a
dor se
vai,
empurrada garganta abaixo
pela pastilha;
e
a faixa cobre
o que
grita:
dor.
Mas a
dor é outra
e brota, rediviva;
ressuscita na
palma
e na ponta
dos meus
outros
cinco
ilesos dedos,
que apertam teclas,
quase a esmo
buscando compensação:
dor.
A dor que
não cabe
aqui,
na página que
não há:
dor
que
multiplicada, repetida,
aquela mesma, salpicada,
ressurge, fragmentária, na
palma da
mão.
Ecos do que
não sou
gritam
no que não
somos, fomos,
fizemos;
gritam contra água,
gazes e
algodão;
marcam seu passo
em ondas
na
palma da minha
outra mão:
dor,
de cinco dedos
sãos que
não
valem por um
da palma
que
já não é.
Não é,
mas
será?
- rediviva, multiplicada
ainda que fragmentada
por novas linhas,
cicatrizes, que
gritem
na minha mão.
shakespeariana III
Porque a noite me mantém acesa e me lembrei do velho quase-vício de abrir meu Shakeaspeare ao azar:
"LENNOX: The night has been unruly. Where we
lay,
Our chimneys were blown down; and as they
say,
Laments heard i' the air, strange screams of
death,
And prophesying, with accents terrible,
Of dire combustion and confus'd events
New hatch'd to th'woeful time; the obscure bird
Clamour'd the livelong night. Some say the
earth
Was feverous and did shake"
("Macbeth", act 2, scene III)
E mais ainda, na cena seguinte:
"To show an unfelt sorrow is an office
Which the false man does easy."
*
Falso ou poeta, "fingidor" que "chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente".
(esse, claro, foi Pessoa)
"LENNOX: The night has been unruly. Where we
lay,
Our chimneys were blown down; and as they
say,
Laments heard i' the air, strange screams of
death,
And prophesying, with accents terrible,
Of dire combustion and confus'd events
New hatch'd to th'woeful time; the obscure bird
Clamour'd the livelong night. Some say the
earth
Was feverous and did shake"
("Macbeth", act 2, scene III)
E mais ainda, na cena seguinte:
"To show an unfelt sorrow is an office
Which the false man does easy."
*
Falso ou poeta, "fingidor" que "chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente".
(esse, claro, foi Pessoa)
Terça-feira, Janeiro 24, 2006
exercícios em torno a um soneto
Alonso Ruvalcaba, com sua costumeira sensibilidade para poesia, traça em seu blog uma linha do tempo de contradições amorosas sob forma de soneto. "De paso", provoca, chamando à tradução.
Incapaz de ter em meu ouvido metrônomo afinado como o dele, respondo à provocação, mas só "a medias": adoto o hay(na)ku para reinventar o mesmo tema, apropriando-me, no caminho - para não fugir da tradição - de uma imagem de Petrarca, lá do começo, e uma de Alonso, do fim da "biografia".
Não acho paz
onde busco
guerra.
Tremo de frio
em pleno
deserto.
Não grito e,
se me
calo,
muda, me faço
voz que
berra.
Não vejo o
que aqui
quero;
anseio
pelo que
não me falta.
Vou,
sem saída,
errando de porta.
Incapaz de ter em meu ouvido metrônomo afinado como o dele, respondo à provocação, mas só "a medias": adoto o hay(na)ku para reinventar o mesmo tema, apropriando-me, no caminho - para não fugir da tradição - de uma imagem de Petrarca, lá do começo, e uma de Alonso, do fim da "biografia".
Não acho paz
onde busco
guerra.
Tremo de frio
em pleno
deserto.
Não grito e,
se me
calo,
muda, me faço
voz que
berra.
Não vejo o
que aqui
quero;
anseio
pelo que
não me falta.
Vou,
sem saída,
errando de porta.
Quarta-feira, Janeiro 18, 2006
Vida breve - o un casi hay(na)ku
Así -
Dos puntos -
Transparente, fina, ligera.
Esa tela que
recubre cada
cuerpo.
Ese suspiro entre
una y
otra
oscuridad.
Dos puntos -
Transparente, fina, ligera.
Esa tela que
recubre cada
cuerpo.
Ese suspiro entre
una y
otra
oscuridad.
Terça-feira, Janeiro 17, 2006
Iztaccíhuatl
Sobre
segundos pisos
y tras la
brumosa
nube de
humo, tus cumbres
asombrosas:
la paz
de ser montaña.
segundos pisos
y tras la
brumosa
nube de
humo, tus cumbres
asombrosas:
la paz
de ser montaña.
Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
auto-retrato
Duas pernas
e um ventre
que dóem.
Dois braços,
que não sabem o que agarrar.
Um peito que arfa
e um rosto
que olha para baixo,
ladeira de lágrimas.
e um ventre
que dóem.
Dois braços,
que não sabem o que agarrar.
Um peito que arfa
e um rosto
que olha para baixo,
ladeira de lágrimas.
Quinta-feira, Janeiro 12, 2006
inexplicables

No te explicas qué provoca una mañana de invierno montañoso como esta. Subes a la azotea, con un fin prosaico, y de repente es ese sol que (todavía) no quema; el aire parado, apenas cosquilleante de frío.
Es lo mismo que te ocasiona mirar estas rosas - tampoco es posible definir el mínimo salto que da tu corazón ante lo bonito de una flor que se abre.
Será alegría. Así, llanamente.
Alegría de un placer gratuito.Y efímero.
Como el aire que ahora ya no roza tu piel.
O el pétalo que con él se va.
(hago mías las palabras de Ernesto: mientras más ocupada estoy, más me dan ganas de postear. Otra cosa inexplicable)
PD - ¿Alguien sabe cómo hacer que estas flores estén alineadas con el texto? En el preview no se ve así. Una cosa inexplicable más, parece. La inepta jardinera agradece sugerencias.
distorsión
me
entran ganas
de un hay(na)ku
y
como Clarice
escribió un libro
por
buscar
el libro ideal
me
aventuro en
violar la forma
pariendo aquí quince
líneas sin
sentido.
entran ganas
de un hay(na)ku
y
como Clarice
escribió un libro
por
buscar
el libro ideal
me
aventuro en
violar la forma
pariendo aquí quince
líneas sin
sentido.
dia noite adentro
Duas da manhã: o corpo dorme, e a cabeça, não.
A densidade de um dia.
O fim de um dia que não chega.
O assalto das cores de um dia - em que idioma? Vermelho, rojo; amarillo, amarelo; lila, lilás: rosa y rosa.
"I loved you unprotected" and "I lost my heart instead". Entangled lyrics in an exercise of comparative listening. Uma voz quase desafinada e gritos de cabaré; uma voz quase falada e um sussurro de cabaré. Um e outro piano.
Nada disso são as cores do mar de Balbec, nem das ondas da Cornualha. Mas quê importa, afinal, no não-fim de um longo dia, na jornada de um dia noite adentro?
A densidade de um dia.
O fim de um dia que não chega.
O assalto das cores de um dia - em que idioma? Vermelho, rojo; amarillo, amarelo; lila, lilás: rosa y rosa.
"I loved you unprotected" and "I lost my heart instead". Entangled lyrics in an exercise of comparative listening. Uma voz quase desafinada e gritos de cabaré; uma voz quase falada e um sussurro de cabaré. Um e outro piano.
Nada disso são as cores do mar de Balbec, nem das ondas da Cornualha. Mas quê importa, afinal, no não-fim de um longo dia, na jornada de um dia noite adentro?
Quinta-feira, Janeiro 05, 2006
Ano Novo
Nos primeiros dias de janeiro, esta cidade me vê pisar seu solo caloso.
Caminho de encontro ao futuro que me é possível, o futuro que se ganha passo a passo dos meus pés se entrelaçando a este asfalto, a esta terra.
Tinha pensado tantas coisas que se pareciam vagamente a poesia e que, no meu pensamento, assumiam a forma do meu desejo. Mas a caneta no papel não as encontra. À minha frente, o chá esfria: maracujá, manga e laranja. Em frente à xícara, eu, que nunca fui fã dessas misturas exóticas, cedendo ante um anseio de doçura, de estranho e de novo.
O novo que é estar só, por um momento. Só no umbigo do mundo, que, finalmente, sempre é onde estamos.
Caminho de encontro ao futuro que me é possível, o futuro que se ganha passo a passo dos meus pés se entrelaçando a este asfalto, a esta terra.
Tinha pensado tantas coisas que se pareciam vagamente a poesia e que, no meu pensamento, assumiam a forma do meu desejo. Mas a caneta no papel não as encontra. À minha frente, o chá esfria: maracujá, manga e laranja. Em frente à xícara, eu, que nunca fui fã dessas misturas exóticas, cedendo ante um anseio de doçura, de estranho e de novo.
O novo que é estar só, por um momento. Só no umbigo do mundo, que, finalmente, sempre é onde estamos.





