
Durante anos - 24, exatamente - eu consideraria um crime de alta traição comprar um disco dos Rolling Stones; lá em casa, só entravam os únicos, os insuperáveis: os "Fab Four".
John não era meu beatle favorito: era Paul. (Não, o fato de que nenhum beatle fosse beatle no fim dos anos 70 não representava nenhum impedimento para uma mocinha ter um beatle favorito.) A febre familiar em torno dos Quatro de Liverpool era tamanha e sua influência sobre mim, tão grande, que, aos 13, meu primeiro beijo foi para um rapazola que não tinha nenhuma outra qualidade mais que... parecer-se incrivelmente com Paul McCartney. Apesar da confusão típica de um primeiro beijo, eu jurava poder ouvir "Something" ecoando entre as notas de "A jardineira", "As pastorinhas" ou qualquer outra marchinha daquele baile de Carnaval em Cabo Frio.
Por essas e outras, não me espanta nada eu conseguir escutar até hoje a voz do repórter na televisão dizendo que John Lennon estava morto. Eu tinha oito anos e plena noção de quem era John Lennon. Ali aprendi também um novo nome, Marc Chapman, e uma indignação diferente de qualquer sentimento que eu tivesse experimentado: era in-con-ce-bí-vel, embora, não, essa palavra eu certamente não conhecesse. Até hoje eu não acredito.
Na única vez que estive em Nova York, aos 20 anos, tive muita sorte de conseguir, com meu grupo de amigos, um lugar nos hoje antológicos Central Park Studios. O fato é que eles não eram, na época, o alojamento caríssimo em que se converteriam; longe disso: "Ms. Florence" (a proprietária, figura misteriosa que eu nunca vi, com quem nunca falei) nos propiciou a melhor relação custo-benefício da minha história de viajante, "cheapísimas" quitinetes localizadas a uma quadra do (já) antológico Dakota. Antológico, claro, desde que John Lennon vivia nele; nessa época, já fazia quase 12 anos que não.
Eu acho que a foto é do último dia da viagem. Com tanta coisa para fazer, deixei os Strawberry Fields por último. Mas não podia deixar de ir visitar o jardim das delícias desse "desconhecido" que, como outros "alheios" da minha vida, de alguma forma me ensinou a trabalhar a terra do meu próprio jardim.