Segunda-feira, Outubro 31, 2005

as horas vazias

Penso nas horas vazias
Que não vão se encher de você,
de um riso contido,
de longas conversas,
de um abraço que nos mantém,
aos dois,
de pé.

Penso em todas as coisas que
não.

Não falar.
Não tocar.
Não trocar as experiências,
do dia,
da vida.

Não empatar as existências,
contando histórias do que foi,
do que fomos,
do que queríamos ser
e não fomos.

Não falar do futuro –
nem de um, nem dos dois.

Não falar nem sequer do presente:
fingir que ele não existe,
fingir que nele não existe
você, nós.

Viver um luto por algo vivo,
escapar do desejo de mantê-lo na mão,
pulsando:
um pássaro.

Soltar o que retive entre os dedos,
o que eu tocava de leve,
aquilo cuja textura eu sentia,
e que me maravilhava com ser novo.

Matar o que em mim é seu,
O que,
sendo meu,
está em você.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

identidade

(para pôr um pé no comezinho)

Hoje uma loja de departamentos do país onde eu vivo decidiu que não podia me dar uma linha de crédito.

Hein?

Não é bem verdade: a pessoa para quem mandaram a carta não era eu.
Eu não me chamo como eles escreveram.
Essa aí, se existe, não mora nesta casa.

Aliás, quem será que pediu para ter cartão de loja de departamentos?

blancos móviles

Y de pronto tu mirada es más un pozo
(uno más y más aún y más que antes)
y heme aquí intentando escribir poesía
- actividad que no estaba entre mis hábitos.

?Pero qué sé yo de poesía,
de métrica,
de rima?

Tal vez menos que de su superación:
el verso
libre,
el verso
blanco.

Blanco como el hoyo de un pozo infinito.
Libre como se cae
quien se cae

en
un
pozo.

(De unos ojos, u otro.)

Blancos como libres,
libres como solos,
y solos cómo estamos.

Blancos
el uno
del otro.

Libres,
y eso cuando -
justo cuando -

lo que la vida prometía
era ser una inmensa,
profunda

compañía.

Domingo, Outubro 23, 2005

no-correspondencia

La boca del sobre vacío me sonríe una sonrisa triste.

palimpsesto

Yo me inmiscuí en el recuerdo de tu infancia.
Vestí, sin consultarte, la ropa de tu niñez.

Ya no puedes volver el cuello,
mirar hacia tras,
sin saber que ahí también estoy yo,
grabada en un tiempo que no era el mío.

Nos robamos la inocencia.
Mutuamente. Al mismo tiempo:
la nuestra, y la de cada uno.

En un momento pasado,
no estuve yo.
No estaba nada de eso.
Tú tampoco estabas.

Y, sin embargo, seguíamos el uno hacia el otro.

Sábado, Outubro 22, 2005

blues do azul

O céu era de um azul tão bonito
e você vinha tão cansada de atravessar a noite.
Na manhã do seu amor
o rosto

franco
amplo

surgiu mais alto que todas as outras
cabeças,
contra o céu azul,

e era tão bonito.

Agora você tem medo.
O céu é de novo azul, de novo
você está cansada. E ainda assim
lhe sobra corpo para ter medo.

Suas mãos não lhe pesam, isso não
não lhes pesam, nem a você nem a ele,
que as estreitam como se fosse possível perdê-las.

Algo há que constrói a possibilidade
de elas se perderem.

Mas algo há também que
corre da possibilidade e,
com você cansada, seu corpo cansado, sua cabeça
cansada
se encostando,
cansada,
contra o peito mais alto que há,
(sim, há)

deixa ver o céu azul,
e é tão bonito.

Sexta-feira, Outubro 21, 2005

shakespeariana - II

ANTIGONUS I told her so, my lord,
On your displeasure's peril, and on mine,
She should not visit you.
LEONTES What, canst not rule her?
PAULINA From all dishonesty he can: in this,
Unless he take the course that you have done -
Commit me for committing honour - trust it,
He shall not rule me.

("The Winter's Tale" act 2, scene III)

*
À custa da pontaria certeira do bardo, os limites desta atividade estão atingindo uma desproporção perigosamente séria. Ou não: "o texto é um tecido de citações provenientes dos mil focos da cultura", já nos dizia Roland Barthes em seu "A morte do autor".
Ao menos, então, "meu" texto está nascendo de um foco de cultura altamente iluminado.

Domingo, Outubro 09, 2005

shakespeariana - I

Não é para se tornar um vício, mas fui instada, pelo comentário abaixo, a comprovar o poder revelador de Shakespeare. E eis que ele me brinda, nesta noite, com algo mais suave e risonho:

"Master, some show to welcome us to town."

(in "The Taming of The Shrew" - vulgo "A megera domada"; da boca de Tranio, ato 1, cena 1)

Sábado, Outubro 08, 2005

shakespeariana

"Foreknowing that the truth will fall out so."

O bardo, sempre luminoso, mesmo se a gente faz de suas obras completas oráculo, livro aberto ao azar; mesmo numa linha perdida de uma peça considerada menor, inacabada, como é essa "King John" (ato 4, cena II, verso 154)

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

pitagórica

17 letras.
2 espaços.
1 ponto.

quanto cabe nessa equação?
que composição matemática ordena o sentido do pequeno universo de uma frase?

nenhuma combinação aleatória reproduz,
como nenhuma conta esgota
o seu efeito.

malafont

Y mi agua también.
Sale de su gorda botellita para mi boca a sorbos que trato de proteger. Llueve...

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

express

...y me bebo la lluvia ácida
con mi café de hombre.

Domingo, Outubro 02, 2005

pulsar

Cada corpo tem muitas vidas.
A mão pousada sobre o braço do outro sente contra si a veia a palpitar, quente.
Dentro é um calor de estábulo: umidade animal, respiração forte e lã suja do pasto, atrás da porta fechada por alguém com o rosto queimado pelo frio.
Gente, animais, sangue, lã e suor; dentro, e fora.
Uma porta que separa e uma pele que vibra, sutil, sobre a vida que corre.