Sábado, Agosto 27, 2005

dépaysée

Você caminha por umas ruas que ainda são novas, como é possível que ainda haja ruas novas?
Mas há. Há, são novas, e no entanto você não é turista. Você tenta se achar num fragmento de calçada, numa janela, num cruzamento em que uma árvore luta contra o tempo, esquecida.
Você sobe a passarela, e a passarela é para um outro mundo. As grades verdes que se unem, para juntar nesse carrefour aéreo gente que poderia vir de vários lados (mas não vem ninguém mais que um grupo de estudantes saindo da escola e tomando a chuva que começa a cair).
E assim, suspendida no céu da cidade cinza, no céu cinza da cidade, cercada de verde, verde de grades e verde de árvores, você sorri.
Olha para dentro e é como se visse uma fotografia de si, o guarda-chuva cinza aberto, a camiseta amarela, as sandálias, sim, de turista, mas a chuva não é tanta para molhar seus pés.
A chuva, porém, é suficiente para prover o último transporte para dentro desse parêntese cheio de reticências: um cheiro de pinho que sobe da terra, verde, fresco, antigo, sutil ele emana da terra úmida. E você sorri, sabendo onde está.
E onde está é um tempo passado e futuro, que cabe no cheiro de pinho, porque ele não é de tempo nenhum. É de uma infância que não é do seu país, mas é sua; é desta terra molhada que cobre a cidade cinza onde você veio viver. E você chora.
E você sorri.
E você segue o seu caminho, olhando para dentro de si como quem olha uma fotografia.

Segunda-feira, Agosto 22, 2005

erva venenosa

Sim, eu sei. Como jardineira, ando me saindo uma bela cultivadora de ervas daninhas... Hoje o Ruy Goiaba chamou a minha atenção para os efeitos da minha ausência - esse "spam daninho" nos comments abaixo.
Eu estou há dias querendo entrar com tudo - enxadas, pás, ancinho - e fazer uma bela limpa por aqui, redesenhar os canteiros. Mas anda bem difícil.
Sempre o que falta, para começar, é tempo. Tempo passando sobre nós com aquela peculiaridade: sendo pouco, parece longo; sendo muito, ainda assim não alcança. A semana passada foi exemplar. Meros 7 dias, mas pareceram, no mínimo, 14. Atividades extrajardinísticas me mantiveram passeando por outras terras e eu nem pude parar para sentir o cheiro do mato crescendo por aqui.
Preciso confessar que, também, ultimamente, além de tempo, anda faltando adubo. As idéias estão concentradas demais em outros campos.
Voltando à erva venenosa que se infiltrou nos comentários abaixo... Alguém tem alguma idéia de como se faz para arrancá-la? Eu tentei (não estive tão ausente assim, só calada, o que para os visitantes é o mesmo, eu sei), mas não soube como. Talvez não haja mesmo uma maneira.
O curioso é a aparência da tal erva. Será que esse spam de blog é seletivo e achou que eu, modesta jardineira virtual, sou uma plantadora em larga escala? Acontece que o "anunciante" (sic - para não chamar de "invasor", que é o que ele merecia) nos fala de uma certa EGTY, que, vejam só, "assegurou para si os direitos globais para negociar madeira de lei geneticamente melhorada e de rápido crescimento". Ou pelo menos é o que diz até onde eu li, que essa coisa, além de ser venenosa e invasiva, ainda é longa à beça e eu não tive paciência. Nem curiosidade, aliás: não quero saber de espécies transgênicas aqui no meu jardim, não.
Sugestões de erradicação são bem-vindas.

Terça-feira, Agosto 09, 2005

"to dive in love"

Inspirada pelo Evelio e suas considerações sobre como alguém se apaixona em inglês, e também a partir da visão de amor que o teólogo Thomas Merton expôs e o mesmo Evelio transpôs (veja em http://dawnfades.blogspot.com), acabei achando de dizer que, quando a gente se apaixona no idioma de Shakespeare, deveria aproveitar o barroquismo imagético da expressão original e deturpá-la: em vez de "fall", a gente "dive in love".
Imagine que bonito você poder confessar o seu amor dizendo: "I have dived in love with you". Ou, melhor ainda, "I have dived in love for you".
Cair de cabeça em algo desconhecido por alguém. Não é isso se apaixonar?
Pois não mergulhamos de livre e espontânea vontade e em malsã consciência nessa obscura coisa que chamamos amor, que tem fronteiras mal-definidas, fundo que não se enxerga?
Gostei de pensar assim e adotei. Achei muito mais lindo do que a drasticidade culposa de "cair em amor" como quem "cai em desgraça".

Sexta-feira, Agosto 05, 2005

ou em forma hai(na)ku

Resolvi experimentar dizer o que disse abaixo numa forma que está se tornando meio, ahn, popular em blogs escritos em inglês que freqüento. Essa variante filipina do haiku japonês é, pelo que compreendi, uma criação de Eileen Tabios. Veja mais no blog que ela dedica ao tema: http://eileentabios.blogspot.com/

No meu experimento, a quadrinha viraria dois tercetos, para cumprir com a forma, que diz que devem ser estrofes de três linhas, em que a primeira tenha uma palavra, a segunda, duas, e a terceira, três. Evidentemente é mais fácil para anglófonos. Eu não escrevo em inglês, mas vá lá.

ter
um segredo
numa cidade é

ter
essa cidade
dentro de si.

Tem um ritmo bonito, até.

quadrinha

ter um segredo
numa cidade
é ter
a cidade.

Terça-feira, Agosto 02, 2005

aquilo que chamamos lar

Primeiro foram várias lágrimas enquanto o avião enchia os ouvidos de barulho.
Depois a noite atravessada contra o tempo, que andava para trás.
A alma, dizem, chega mais tarde quando a gente viaja. Mais ainda se for entre dois lares.

E agora, cada coisa em seu lugar, é essa música que toca numa língua que é e não é a minha.
E um monte de flores diferentes nos vasos da sala.
Essa mesa que pede acabamento, mas que, ainda assim, tem funcionado tão bem como espaço para as idéias.
Um café olhando as palmeiras e a chuva que cai, pontual, no marco das três da tarde.

São tantas coisas as que a gente colhe e absorve; às quais dá sentido sem perceber.
Tantas coisas. As daqui e as de lá.

As coisas que chamamos lar.

(de volta, cheia de vontade de pegar nas ferramentas e remexer no jardim, mas ainda ocupada demais para maiores plantios)