Sexta-feira, Julho 22, 2005

elementar

"Eu gosto do ar. Pensa no vento, o ar que sacode, que sopra, que silva. Que embala a rede e enfuna a vela."
"Mas para que a vela enfunada no barco ancorado? Eu prefiro a água, que leva no correr do rio os males que se murmuram à sua beira. Água que corre, que canta. Água que flui e que assume a forma de seu continente."
"Assume, sim, a forma: se molda, enquanto que o vento não se deixa aprisionar. O ar se move livre e nada o pode conter."

*
Pára e pondera. A partir daqui, a pequena história pode ter dois finais.

*
"Só eu para querer cruzar os mares contigo, tendo à guisa de navio uma rede embalada pelo vento."


*

"Vem. Vamos juntos cruzar os mares, nessa nossa nave que é uma rede embalada pelo vento."

primeira, segunda comunhão

Pousa sobre a língua um bombom - inteiro, apesar de meio grande - como se fosse hóstia. Sem culpa nenhuma.
Deixa derreter um, e depois outro: primeira e segunda comunhão.
Misticamente apaziguada, quase se esquece da briga.
Um pecado bater a porta assim, com tanta raiva, deixando tantas coisas por dizer.
As coisas por dizer se esquecem no fundo do palato; se escondem no confessionário da embalagem de papel brilhante.
Não tem nada não: a caixa ainda guarda muitas promessas por fazer.
E pagar.
No céu da boca.

Quarta-feira, Julho 20, 2005

cada coisa em seu lugar

"What we call the beginning is often the end
And to make and end is to make a beginning.
The end is where we start from. And every phrase
And sentence that is right (where every word is at home,
Taking its place to support the others,
The word neither diffident nor ostentatious,
An easy commerce of the old and the new,
The common word exact without vulgarity,
The formal word precise but not pedantic,
The complete consort dancing together)
Every phrase and every sentence is an end and a beginning,
Every poem an epitaph. And any action
Is a step to the block, to the fire, down the sea's throat
Or to an illegible stone: and that is where we start."


(extraído de "Little Gidding", o quarto dos "Four Quartets" de T.S. Eliot)

Obrigada a Ruy Goiaba (http://puragoiaba.wunderblogs.com/ - desculpe se o link não funcionar, mas sofro de incapacidade linquíca crônica, ainda à espera de tratamento). Totalmente sem querer, só por ter posto Eliot em seu panteão, ele me fez pensar nesse trecho do poema, do qual gosto especialmente.
Traduzir nem pensar, não me meto com a esfera maior da poesia. Há tradução, sei que saiu uma nova no Brasil, mas não procurei muito porque gosto do som do original. Se eu depois achar, coloco.
Mas ao menos assim essa terra do jardim não fica tão baldia, uma vez que esta jardineira - um pouco em férias das coisas boas, mas muito atolada de trabalho chato - não tem tido tempo para seu cultivo.

Sábado, Julho 09, 2005

goiva cega, fé amolada

Então tá, é assim: você se lembrou que, enquanto você rala fazendo um trabalho pouco inteligente num quarto qualquer, alguém toma champanhe numa festa de nome pomposo em torno a si mesmo, em algum lugar mundo afora. Bem-acompanhado, bem-vestido, realizado na vida, futuro acertado: navegando em velocidade de cruzeiro. Firme, constante. Para o alto.
E o seu motor patinando.
Mas e daí? Será que você queria trocar de vida?
Você, é evidente, não sabe responder.
Você, é claro, queria ter essas duas vidas, e mais, três, cinco, dezoito vidas.
O tintim dos copos que você ouve dentro da sua cabeça não fere mais do que o silêncio do outro lado da linha. O vácuo de não-respostas, a espera de quem-sabe-quê.
A glória que você ainda não alcançou (e por isso parece tão imensa e brilhante e possível, tanto quanto impossível e fatigante quando você quer dormir e não consegue pensando nela e no que fazer ou não fazer) é pão de cada dia na mesa de outro.
Você se pergunta qual é o caminho, e sabe que essa é uma questão ingênua.
Amanhã, quem sabe, você vai visitar a exposição de Henry Moore e se encher de esperanças, sonhando um dia ganhar da rainha um bosque de madeira nobre, para a única e exclusiva finalidade de servir às suas goivas. Esculpir, limar, tirar. Tirar o que não é beleza, o que não é necessário: o que não é.
Mas a sua vida parece é cheia de excessos, tantos.
Excesso de desejos, de torpor, de indecisão.
Às vezes você nem vê quantas camadas são, a goiva cega escavando a esmo.
Mas segue tentando.

exotismo

Os dois textos abaixo são frutos de uma árvore do assombro cívico, espécie exótica a este jardim, mas de raízes muito fortes na parte da minha vida que é externa a seus limites.
Não deu para conter, não.
Em breve a paisagem deve voltar ao seu aspecto "típico".

Sexta-feira, Julho 08, 2005

vale a pena ver de novo?

A secretária. O motorista. O homem da mala.
Reprise na telinha, para tirar qualquer dúvida que tenha restado à minha geração sobre que se passou 13 anos atrás. Ou 13 minutos atrás.
Puxa, logo 13?

soro fisiológico

"O PMDB ficaria mais contente com outro ministério, porque assim daria para acomodar melhor a nossa base, que é grande."
De Ney Suassuna na TV, em horário nobre (sic).
Meninos, ouvi: eis a seiva do senado nacional - ou, melhor dizendo, seu soro fisiológico.

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Itacoatiara

Lá estava o primeiro mar da minha infância. A água, seria a mesma?
Espuma branca despencando do alto de dois, três metros. Chego perto das ondas e o cheiro do mar se impõe: em nenhum outro lado do mundo aquela excitação, picando as narinas por dentro, minúsculas gotas de lembrança.
Sinto que meu rosto se crispa na mesma expressão infantil que, diz minha mãe, mantenho até hoje quando algo me comove de maneira alegre. Eu me abaixo procurando uma concha preciosa, que testemunhe o perene que há no mar. Encontro uma, branca, branca, lisa e polida, que cato distraída e levo comigo até a ponta da praia. Mas não levo da praia a conchinha do mar da minha infância: eu a devolvo às águas, para que esteja lá quando eu volte.

*
Desfilo meu disfarce de estrangeira, a pele bem clara de quem não vive junto ao mar.
Protegida pelo tempo, que agiu sobre mim, e pela memória, que tem agido a meu favor, busco na areia um rosto conhecido. Mas é uma segunda-feira, e só podem estar na praia, neste fim de tarde, os que têm a idade que tinha eu quando ainda vinha aqui; os que estão de férias e aproveitam a luz desse inesperado verão em pleno julho.

Na praia, então, parece que todos têm, eternamente, a mesma idade. A idade de quem pode se esquecer sobre a areia. Eu, eu me esqueço de que não tenho essa tal idade.

*
Ocean spray. Bonito, ocean spray... "The waves broke into the shore", me lembro.
A ocean spray me salpica desse mar da minha infância, meu rosto tingles forgetful of the lack of plumpiness in my skin. Dá esse desejo de língua estrangeira, estrangeira que sou a este tempo-espaço. Estrangeira e, ao mesmo tempo, não.
Coisa mais estranha de sentir.