Quarta-feira, Junho 29, 2005

que país é este?

Depois de perpetrar sua vingança, vinte homens se ajoelham no chão gramado. Rezam alto, fervorosos. Então se levantam e dançam e bebem - água, por suposto.
Quem entende este país?

Ave, Adelina

Passar pelo mundo como uma sombra, dizer adeus com os braços abertos qual asas de passarinho.
Uma vida tão pequena, apesar de tão longa, e ainda assim, no final querê-la, lamentar tê-la escorrendo pelos dedos.
Assim se foi. Ave, Adelina.

Terça-feira, Junho 28, 2005

meditação sobre a vulgaridade (ou da perfeição do irreal)

Certas distâncias, dizem, avivam o amor. Sabemos disso na pele.
Mas outras - serão a maioria? - acabam apagando o que se sentiu.
O problema, certamente, não é da quilometragem, mas da qualidade do afeto.
É clichê, também, dizer que amor é feito planta. Precisa regar e coisa e tal. Mas é clichê, lugar-comum, de tanto que as pessoas acreditam e, por acreditarem, repetem.
Ou seja, é comum porque é verdadeiro.
Talvez a chave seja essa: o inventado é invulgar.
Um amor que se inventa é invulgar: o irreal seduz, a bolha cristalina em que felizes entramos, perfeitamente redonda como só algo inventado pode ser.

(mas, atenção, ninguém aqui disse que um é melhor do que o outro)

Domingo, Junho 26, 2005

escaninho da tarde

Você entra na avenida e todos os tempos se juntam no dégradé de azuis que tinge o céu.
Toda a ordem, toda a rotina com que você organizou a vida em cada época se confundem, revoltas, no escaninho da tarde.
No rádio, a música retrô - o passado está na moda - faz ainda mais borrosas as fronteiras e, por um fragmento mínimo do percurso, você acredita que é um domingo de 1987 e você está chegando aqui pela primeira vez: a cidade é grande, e você tem medo.
E é só aí que você se lembra que nem sempre ela foi "sua".
Mas isso importa?

Sexta-feira, Junho 24, 2005

celebração

hoje haverá vozes & copos & tilintar de brindes numa noite de inverno.
mão fria, coração quente.

Terça-feira, Junho 21, 2005

solstício

O inverno chegou ao trópico com pontualidade britânica e ímpeto latino.

Segunda-feira, Junho 20, 2005

geografia

E de repente parece que todo o chão que você pisou na sua vida foi esse pedaço de terra, sob a chuva que cai copiosa desse céu cinza, que você sempre detestou e então, nessa tarde úmida, passa a adorar.
O cheiro de terra molhada é como se fosse o ar de todos os dias.
As vozes e a língua que você escuta pelas ruas sempre estiveram em seus ouvidos, como a abóbada de chumbo sobre a sua cabeça.
No seu mapa pessoal nove mil, dez mil quilômetros são como a outra esquina.

mercados e futuros

perspectiva é um artigo volátil no bazar das emoções.

Sexta-feira, Junho 17, 2005

40

Antes da quaresma, a carne vale.
Depois dela, o amor ressuscita.
(mas nem toda quarentena cura.)

insônia

Um mosquito infernal me acordou.
As outras coisas zumbiram em torno da minha cabeça e me impediram de dormir.

Terça-feira, Junho 14, 2005

da materialidade das coisas imateriais

(ou "lugar-comum")
como entender um perfume que insiste em voltar às narinas? e a pressão contínua de uns dedos que se foram?
respondendo a si mesmo: "assim é".

Domingo, Junho 12, 2005

Querétaro

O ar é morno, e a brisa que sopra, de vez em quando, é discreta: apenas suficiente para que ele não se torne quente e pesado.
Ela caminha sobre as pedras escuras da rua nesta noite de verão; o ar é como o tempo: quase parado, nesse lugar de história. Janelas altas, portas decoradas. E ruas de pedra escura.
De repente olha para o chão que pisa e se surpreende com o regular que são as pedras. Diria "iguais" se não soubesse que isso é impossível: uma mão humana por trás de cada pedra, talhada sob quem sabe quais condições.
Uma alegria pisar nesse desenho antigo e quase perfeito, perfeito ao olho nu. Uma alegria saber que o tempo passou sobre esse chão e ele segue ali.
O ar é morno e toca a sua pele. E então ela se sente quase como o ar, quase como o tempo, suspendida em si mesma.

Quinta-feira, Junho 09, 2005

passado do poema

Mas ela tinha um segredo - estaria bem guardado? Antes era só um esboço de idéia, que não conquistara a forma de palavras, que não tinha ganho o status de coisa narrável. Revendo o que tinha acontecido, não conseguia entender quando é que a idéia tinha se avolumado e ganho força. Tanta. Incrivelmente forte, revestida de sua carapaça de letras, a idéia virara coisa. Nunca voltaria atrás, essa idéia coisificada, que brotara a despeito da terra cheia de sal.

à espera

William e Lena e Christmas me esperam na sala, encerrados na sua verdura alugada. Quero ir a seu encontro, mas é difícil acompanhar outro calor, uma luz de agosto que se espraia modorrenta sobre páginas e páginas.
Há coisas por fazer, mas nada parece urgir.

sopor

Quem sabe quantos graus, 30, 32. Parecem 40.
O estio enlouquecedor nesta cidade.
A noite não refresca em nada as idéias:
a mente trabalha lenta, o corpo cede ao sopor.
Só mesmo as brutas flores do querer, que a tudo resistem
(a tudo?) insistem em brotar.

Sexta-feira, Junho 03, 2005

flor-do-paraíso

Entre as ferramentas do jardim, vingando em um monte de terra esquecido num vaso pequeno, achei essa planta.

Se chama "Paraíso". Fica aqui, à espera de novos brotos.

***

Lá fora é a cidade, seus ônibus e aviões, cruzando todos os sentidos.
Lá fora é a vida, o ruído é de qualquer lugar, qualquer cidade; delas todas são os ônibus, e os aviões, e os pássaros. O ruído é da vida e atravessa as membranas do meu quarto.
A cidade se move, a vida se move, o ruído é o mesmo.
É quase ancestral.
E se move.
Acorda e dorme como todos, volta com os passarinhos, penetra pelo prisma que se construiu, pelas membranas do lençol e dos ouvidos.
Lá fora é um lugar, mas poderia ser outro.
Quem não foi à Lua não sabe.
Eu fui à Lua e escolhi a Terra – mas a Lua também me exilou.
Tenho os dois pés na terra e o corpo sobre uma cama de madeira, comum.
A vida comum.
O paraíso dos homens comuns.

Tudo isso aconteceu, não, não é sua memória lhe enganando.
O tempo esteve detido, as horas não foram as mesmas, o ar de fato levantou você do chão.
O corpo quente ao seu lado não prova nada.
Você esteve lá. Era um lugar diferente?

um pouco de jardinagem

Separar com dedos finos as folhas jovens das mortas.
Sempre de viés, cortar o talo do que já se foi, deixando a seiva para o que virá.

*
O tempo anda escasso; o desejo, não.