Sexta-feira, Maio 13, 2005

moment of being

Tinha cinco anos, uma calça de veludo amarela e um casaco de lã bege e marrom, com zíper; cabelos compridos sempre atrás das orelhas, abraçava a perna do pai na frente do palácio de Buckingham. A roupa, é o retrato que conta. Do palácio, lembra de tentar ver se a cabeça branca da rainha despontava numa janela, em meio a dedos que se cruzavam no ar, aflitos, balançando nas mãos de quem acreditava ter percebido certo movimento naquela balaustrada do terceiro andar.
Pertence a esse mesmo dia aquele fim de tarde de verão londrino em que se precisava de agasalho e passeavam no parque?
O parque; era o Green, ou St. James, ou Hyde, mas definitivamente impossível saber qual dos três.
O que vem, nitidamente, em sua direção, é o passarinho morto, pendurado por uma asa na mão do menino inglês. Os olhos certamente terão se arregalado, a boca crispada na impossibilidade da palavra.
Corre até o banco para saber como se tem medo em inglês. "I'm afraid", responde a mãe.
"Amafreid", repete a menina, recebendo de volta o sorriso do garoto, não feito dos seus dentes de leite, mas do grande intervalo entre eles. O passarinho sacode sem vida, se aproximando perigosamente do seu rosto, as palavras apenas assimiladas e já vencidas. "Amafreid", repete a menina. Em vão. "Afraid", "afraid", o que era isso, afinal?, as vogais escalando as consoantes, "amafreid". "Afraid" da morte, embora ela não soubesse definir. Medo, talvez, de se contaminar com a não-vida emplumada que avançava rumo a ela.
Falhando a palavra, a solução foram as pernas, que se desdobraram rápidas, levando a menina para longe do tanque, à beira do qual se encontram, ainda, menino inglês e passarinho.

Terça-feira, Maio 03, 2005

manhã gris

Cedo, pensei no que é uma irmã pequena, dormindo no seu mesmo quarto, o cabelo cor de palha liso escorrido fazendo cócega na sua cara quando ela vem acordar você e você só quer dormir, porque afinal não são nem sete da manhã... ela quer brincar e canta com uma vozinha estridente.
Mas é uma manhã cinza, e agora já passa das sete.
Os carros e seus faróis amarelos riscam as ruas de giz, iluminadas por postes de luzes de luz amarela.
Fosse talvez uma manhã gris em Roma, o ar imortal que quer se erguer com glória, os carros cortando a umidade insistente da noite que não se vai. Mas é uma manhã nesta esquina comum, hoje, e em breve mesmo a luz amarela some. Fica em seu lugar só esse nata cinza de dia que quer se levantar: sem glória, comum, sem irmã.