moment of being
Tinha cinco anos, uma calça de veludo amarela e um casaco de lã bege e marrom, com zíper; cabelos compridos sempre atrás das orelhas, abraçava a perna do pai na frente do palácio de Buckingham. A roupa, é o retrato que conta. Do palácio, lembra de tentar ver se a cabeça branca da rainha despontava numa janela, em meio a dedos que se cruzavam no ar, aflitos, balançando nas mãos de quem acreditava ter percebido certo movimento naquela balaustrada do terceiro andar.
Pertence a esse mesmo dia aquele fim de tarde de verão londrino em que se precisava de agasalho e passeavam no parque?
O parque; era o Green, ou St. James, ou Hyde, mas definitivamente impossível saber qual dos três.
O que vem, nitidamente, em sua direção, é o passarinho morto, pendurado por uma asa na mão do menino inglês. Os olhos certamente terão se arregalado, a boca crispada na impossibilidade da palavra.
Corre até o banco para saber como se tem medo em inglês. "I'm afraid", responde a mãe.
"Amafreid", repete a menina, recebendo de volta o sorriso do garoto, não feito dos seus dentes de leite, mas do grande intervalo entre eles. O passarinho sacode sem vida, se aproximando perigosamente do seu rosto, as palavras apenas assimiladas e já vencidas. "Amafreid", repete a menina. Em vão. "Afraid", "afraid", o que era isso, afinal?, as vogais escalando as consoantes, "amafreid". "Afraid" da morte, embora ela não soubesse definir. Medo, talvez, de se contaminar com a não-vida emplumada que avançava rumo a ela.
Falhando a palavra, a solução foram as pernas, que se desdobraram rápidas, levando a menina para longe do tanque, à beira do qual se encontram, ainda, menino inglês e passarinho.
Pertence a esse mesmo dia aquele fim de tarde de verão londrino em que se precisava de agasalho e passeavam no parque?
O parque; era o Green, ou St. James, ou Hyde, mas definitivamente impossível saber qual dos três.
O que vem, nitidamente, em sua direção, é o passarinho morto, pendurado por uma asa na mão do menino inglês. Os olhos certamente terão se arregalado, a boca crispada na impossibilidade da palavra.
Corre até o banco para saber como se tem medo em inglês. "I'm afraid", responde a mãe.
"Amafreid", repete a menina, recebendo de volta o sorriso do garoto, não feito dos seus dentes de leite, mas do grande intervalo entre eles. O passarinho sacode sem vida, se aproximando perigosamente do seu rosto, as palavras apenas assimiladas e já vencidas. "Amafreid", repete a menina. Em vão. "Afraid", "afraid", o que era isso, afinal?, as vogais escalando as consoantes, "amafreid". "Afraid" da morte, embora ela não soubesse definir. Medo, talvez, de se contaminar com a não-vida emplumada que avançava rumo a ela.
Falhando a palavra, a solução foram as pernas, que se desdobraram rápidas, levando a menina para longe do tanque, à beira do qual se encontram, ainda, menino inglês e passarinho.

