Sábado, Abril 30, 2005
Diante dos fatos, melhor ficar em silêncio. Do contrário, em vez de "Jardim das Delícias", este espaço vai merecer mesmo é o título de outros quadros, cheio de terríveis torturas e temíveis infernos, de "El Bosco"...
Terça-feira, Abril 26, 2005
dia plúmbeo
Cinzas as idéias, cinza eu. Cinza esse espaço que fala uma língua diferente daquela que falam as pessoas ao meu redor (sim, acho que já desisti das espécies exóticas, mesmo antes de começar a plantá-las) e que ninguém vê, e se vê, não sei, porque ninguém comenta, e eu não conto as visitas. Cinzas as perspectivas, volumosas nuvens as minhas dúvidas.
Domingo, Abril 24, 2005
uma descoberta: uma redescoberta
Andávamos pela rua pensando no futuro. Mas uma esquina fez você tropeçar no passado.
Eu não fui sensível diante de você, ali, olhando aquelas casas esquecidas, nem depois, no caminho conduzido, consciente, até outro muro, vermelho, que cresceu engolindo os terrenos vizinhos, durante a sua ausência de anos.
Eu não vi nada disso, não vi direito. Minha cabeça ainda estava no futuro, como sói ser.
Isso tudo veio parar na minha frente horas e horas depois, com você já pensando em ganhar o pão de amanhã, enquanto eu jantava um jantar apenas funcional, porque você não estava.
Um pouco antes, eu tinha olhado para você, já vestido para a sua guerra. Seus olhos iam e vinham, mais com um ar de dever que de interesse, sobre o jornal... de ontem. (E hoje já era quase amanhã, que hora para o jornal.)
Como seus braços não são finos, sendo você tão magro? Sempre gostei deles. Olhei bem a linha do seu rosto fazendo no pescoço uma sombra que eu não via, e senti tanto amor.
Amor pela pele fina e branca, sobre os músculos inesperados dos seus braços. Pelas suas sobrancelhas cheias (sempre gostei delas). Pelo cabelo que se esconde atrás do boné, do qual eu nunca gostei. O cabelo sempre foi lindo: sempre gostei dos fios de castanho lustroso, lisos, fartos.
Lembrando da rua que hoje cruzamos, aprendo que já gostava de você quando você era um menino passando por ela, e eu lá longe.
Sempre gostei de você.
Eu não fui sensível diante de você, ali, olhando aquelas casas esquecidas, nem depois, no caminho conduzido, consciente, até outro muro, vermelho, que cresceu engolindo os terrenos vizinhos, durante a sua ausência de anos.
Eu não vi nada disso, não vi direito. Minha cabeça ainda estava no futuro, como sói ser.
Isso tudo veio parar na minha frente horas e horas depois, com você já pensando em ganhar o pão de amanhã, enquanto eu jantava um jantar apenas funcional, porque você não estava.
Um pouco antes, eu tinha olhado para você, já vestido para a sua guerra. Seus olhos iam e vinham, mais com um ar de dever que de interesse, sobre o jornal... de ontem. (E hoje já era quase amanhã, que hora para o jornal.)
Como seus braços não são finos, sendo você tão magro? Sempre gostei deles. Olhei bem a linha do seu rosto fazendo no pescoço uma sombra que eu não via, e senti tanto amor.
Amor pela pele fina e branca, sobre os músculos inesperados dos seus braços. Pelas suas sobrancelhas cheias (sempre gostei delas). Pelo cabelo que se esconde atrás do boné, do qual eu nunca gostei. O cabelo sempre foi lindo: sempre gostei dos fios de castanho lustroso, lisos, fartos.
Lembrando da rua que hoje cruzamos, aprendo que já gostava de você quando você era um menino passando por ela, e eu lá longe.
Sempre gostei de você.
Sexta-feira, Abril 22, 2005
fronteiras
Um frêmito. Uma dúvida. Um querer saber seu lugar no mundo, sem saber o que é lugar, o que é mundo: as fronteiras tão relativas.
Mesmo o corpo é uma fronteira relativa: perde em outro corpo a forma definida.
O tempo tampouco é uma fronteira. Não se mede em espaço, por mais que queiramos, e por mais que seja necessário fazê-lo.
Ontem, hoje, amanhã: nomes.
O nome é uma fronteira?
Sim, talvez o nome o seja. Talvez seja a única fronteira. Impalpável, ao contrário do que se espera. Mas determinante, como deve ser, delineando o um.
Mesmo o corpo é uma fronteira relativa: perde em outro corpo a forma definida.
O tempo tampouco é uma fronteira. Não se mede em espaço, por mais que queiramos, e por mais que seja necessário fazê-lo.
Ontem, hoje, amanhã: nomes.
O nome é uma fronteira?
Sim, talvez o nome o seja. Talvez seja a única fronteira. Impalpável, ao contrário do que se espera. Mas determinante, como deve ser, delineando o um.
Terça-feira, Abril 19, 2005
a marca viva
Que foi, cachorro? Dói? pergunto, na minha cabeça. Pode ter sido uma máquina, considero. Mas ele não tem cara de quem opera maquinário pesado.
Ignorando a interrupção das falanges, a cicatriz continua do dorso da mão para o dedo médio. Faz uma curva vermelha. Profunda. Parece que lateja, brilha sob o unguento que lhe puseram. Os dedos apertam com preguiça, molemente, uma bola de borracha: fisioterapia.
O homem que a porta tem uma idade indefinida. É robusto, sem ser gordo. Tem o nariz bem arredondado e a testa ampla, coroada por um topete alto e cheio. Olho bem e vejo um fio de cabelo branco na têmpora esquerda, que é a que está de frente para mim.
Apesar de não conseguir calcular quantos anos tem o homem, não tenho a menor dificuldade em imaginar seu rosto quando for definitivamente o de um velho. Nem de desenhar mentalmente a cara que ele deve ter tido quando era a criança que em definitivo já não é.
Entra na estação seguinte uma mocinha. Essa, eu sei: 15, 16 anos. Como todas, vem maquiada. Como poucas, tem cintura. Como quase todas e todos, brinca com o telefone para passar o tempo, e nem olha em volta.
Eu vejo o rosto sem idade acompanhar a mocinha, que está postada bem em frente dele, sem saber que ele existe. Do jeito que ela olha para baixo, fica nítido o risco vermelho que marca a pálpebra artificialmente. A maquiagem exposta tem exatamente o efeito contrário ao que a maquiagem deveria ter. Não dissimula nada, só se desvenda a si.
O homem indefinível olha para a cintura da menina aparecendo numa nesga entre calça e camiseta. Olha para os seios bem grandes que ela apertou sob a malha estampada. Olha para a menina e, aspirando de leve sua prória pele, toca a cicatriz com os lábios, num quase-beijo.
Outra estação, alguém sai. A mocinha se senta, fora da vista do homem. Ele tenta disfarçar quando olha para a direita, a mão rolando a bolinha. Eu não posso ver, a moça está atrás de mim. Mas estou certa de que ela continua indiferente, pasmada pelo celular-brinquedo-esconderijo.
O homem se levanta, e acho que só eu percebo que o ato de cavalheirismo ao qual a mulher idosa acede nada tem de gentil. De pé, ele observa a moça outra vez de frente. Na testa grande, duas rugas começam a se insinuar. A cicatriz faz a mão saltar na distância. Dói?
Eu desço.
Ignorando a interrupção das falanges, a cicatriz continua do dorso da mão para o dedo médio. Faz uma curva vermelha. Profunda. Parece que lateja, brilha sob o unguento que lhe puseram. Os dedos apertam com preguiça, molemente, uma bola de borracha: fisioterapia.
O homem que a porta tem uma idade indefinida. É robusto, sem ser gordo. Tem o nariz bem arredondado e a testa ampla, coroada por um topete alto e cheio. Olho bem e vejo um fio de cabelo branco na têmpora esquerda, que é a que está de frente para mim.
Apesar de não conseguir calcular quantos anos tem o homem, não tenho a menor dificuldade em imaginar seu rosto quando for definitivamente o de um velho. Nem de desenhar mentalmente a cara que ele deve ter tido quando era a criança que em definitivo já não é.
Entra na estação seguinte uma mocinha. Essa, eu sei: 15, 16 anos. Como todas, vem maquiada. Como poucas, tem cintura. Como quase todas e todos, brinca com o telefone para passar o tempo, e nem olha em volta.
Eu vejo o rosto sem idade acompanhar a mocinha, que está postada bem em frente dele, sem saber que ele existe. Do jeito que ela olha para baixo, fica nítido o risco vermelho que marca a pálpebra artificialmente. A maquiagem exposta tem exatamente o efeito contrário ao que a maquiagem deveria ter. Não dissimula nada, só se desvenda a si.
O homem indefinível olha para a cintura da menina aparecendo numa nesga entre calça e camiseta. Olha para os seios bem grandes que ela apertou sob a malha estampada. Olha para a menina e, aspirando de leve sua prória pele, toca a cicatriz com os lábios, num quase-beijo.
Outra estação, alguém sai. A mocinha se senta, fora da vista do homem. Ele tenta disfarçar quando olha para a direita, a mão rolando a bolinha. Eu não posso ver, a moça está atrás de mim. Mas estou certa de que ela continua indiferente, pasmada pelo celular-brinquedo-esconderijo.
O homem se levanta, e acho que só eu percebo que o ato de cavalheirismo ao qual a mulher idosa acede nada tem de gentil. De pé, ele observa a moça outra vez de frente. Na testa grande, duas rugas começam a se insinuar. A cicatriz faz a mão saltar na distância. Dói?
Eu desço.
e para quem duvidava...
de que pudesse piorar, o fim do dia europeu nos traz o "habemus papam". O alemão Joseph Ratzinger, alias Bento 16, é um renomado conservador. Contra gays, contra preservativo, contra outras denominações cristãs que não a Igreja Católica Apostólica Romana. Contra. E ainda assim, tem fã-clube na internet.
E ainda assim, a multidão se comove, grita, se convulsiona.
Eu fico dividida, entre ter pena do rebanho e desprezo pelo pastor.
A igreja continua endurecendo.
E perdendo a ternura, ainda por cima.
E ainda assim, a multidão se comove, grita, se convulsiona.
Eu fico dividida, entre ter pena do rebanho e desprezo pelo pastor.
A igreja continua endurecendo.
E perdendo a ternura, ainda por cima.
pá e ancinho
Ainda não me entendo com as ferramentas do meu jardim... O que faz com que ele tenha uma certa aparência de terra baldia.

